Senhora do Monte

domingo, fevereiro 06, 2005

Uma Questão de Decência

Se bem me lembro, as eleições de 20 de Fevereiro são as primeiras em que um dos candidatos está, à partida, eliminado por uma questão de decência. Esqueçamos, por ordem crescente, a incompetência, o populismo, o desrespeito pelo cargo ocupado, as insinuações sobre reles boatos: Santana Lopes mente. Mente com regularidade. Já antes, a acusação, invulgar entre gente deste calibre, tinha sido feita por Miguel Sousa Tavares. Agora, é Vasco Pulido Valente que o afirma, num artigo do PÚBLICO que passo a transcrever:

A certa altura, Santana Lopes resolveu dizer que a "imprensa não o levava ao colo" (como levava Sócrates, suponho). Muito mais tarde, incluí essa queixinha numa longa lista, que tentava ilustrar o desequilíbrio do homem. Calhou que nesse mesmo dia (ou na véspera à noite), no fim do famoso "comício das mil mulheres", Santana voltou a falar em "colos": os que ele preferia e os que ele insinuava que Sócrates preferia. Só soube do caso na manhã seguinte pelo PÚBLICO, que trazia a minha coluna (escrita como de costume na tarde anterior) com a história do "colo da imprensa". Para quem a lesse, não havia confusão possível entre "colos". De resto, até para quem não a tivesse lido, misturar o "colo da imprensa" com o "colos" do comício era um acto de má-fé. Mas nada disso impediu Santana de me citar no debate com Sócrates, para fingir que se referira ao "colo da imprensa" no "comício das mulheres". Surpreendentemente, apareceu logo quem acreditasse nesta habilidade pueril. E não é a primeira vez que isto acontece. Em balanço, a mentira cria a dúvida ou a confusão e acaba por favorecer Santana.
Existe no mundo político português, e também nos "media", uma certa relutância a chamar os bois pelos nomes, que nunca se viu tão claramente como hoje. A pretexto de que não se deve discutir a vida privada de cada um, não se discute a vida pública de ninguém. Além disso, a vida pública e a privada não são inteiramente separáveis. Não se muda de carácter porque de repente se entrou num partido ou no governo (ou numa televisão ou num jornal). Um aventureiro, um arrivista, um falsário, um irresponsável e um mentiroso contumaz não deixa de o ser quando atravessa a linha (de resto, indefinida e convencional) para o domínio público. Fica ele próprio - e cedo ou tarde mostra o que verdadeiramente é. As pessoas de Santana e Sócrates podem e devem ser discutidas. Não discutir a sexualidade de cada um, não significa conceder um privilégio de silêncio para tudo o resto. Se, por exemplo, Santana mente, convém escrever letra a letra que m-e-n-t-i-u e não disfarçar a coisa com um eufemismo qualquer. Permitir que a "moral" política (ou a latitude "moral" concedida aos políticos) se afaste excessivamente da "moral" comum equivale a declarar a política uma actividade meio criminosa, a que alguns malandros se dedicam por inconfessáveis razões. Claro que o país já não anda longe dessa ideia, mas talvez seja bom não a confirmar.

1 Comments:

  • Li o VPV e apercebi-me da habilidade, da tanga do Santana.
    Estive para escrever sobre isso mas não tive tempo.
    Não há dúvida que houve um aproveitamento mentiroso da situação.

    By Blogger gelsenkirchen, at 1:24 da manhã  

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