Nota prévia: Tenho este post escrito desde o dia 10 de Janeiro.
Na altura, mostrei-o ao
Mário Antunes Varela.
A sua reacção, de grande comoção, gerou em mim sentimentos contraditórios.
Por um lado, fez com que não tivesse coragem de o editar, por outro, pensei que a publicar, só o faria quando, e se, um dia, o blogue tivesse uma visibilidade maior do que a que tinha àquela data.
Em 10 de Janeiro, tínhamos uma
média de 40 leitores/visitantes por dia,
agora temos uma
média de cerca de 350 leitores/visitantes por dia e ainda anteontem tivemos perto de
800 leitores/visitantes entre o weblog e o blograting.
Só ontem, dia 10 de Fevereiro, os nossos leitores/visitantes
leram mais de 1000 páginas editadas por nós.
Agora, ganhei coragem!
Chegou a hora!
O
Pedro Guedes deixou
aqui para a posteridade um post de boas vindas ao
Stélio, que me fez reflectir sobre
uma fase da minha vida que há muito se encontrava segmentada, compartimentada e encerrada num cantinho do meu baú de memórias e recordações.
E vou recordá-la aqui, por uma vez, por razões que compreenderão.
O
Guedes falou de conspirações e eu lembro-me de muitas e não só das da casa do Elevador da Bica.
Recordo-me do escritório da Rua Padre António Vieira, de uma cave na Praça do Chile, de uma casa ao Panteão, de um Palácio ao Rato, da Flamenga, de um escritório no Conde Redondo, das instalações da Associação Académica de Lisboa ao Areeiro e outras mais esporádicas.
Os locais eram vários e para todos os gostos, iam do piolhoso ao faustoso.
Alguns dos protagonistas e nossos interlocutores eram gente ilustre, daqueles que não se pode dizer aqui o nome, daqueles que ainda que o fizesse, também ninguém acreditaria em mim, nem em nós.
E os conjurados éramos nós.
E estávamos ao ataque de tudo, de Partidos, de Universidades, de Reitorias, de Associações Académicas.
E o mais estranho, é que sendo nós tão jovens, todos pareciam estar genuinamente interessados em conspirar connosco.
Acreditávamos que íamos mesmo mudar o mundo.
Os conjurados eram numa primeira linha, o
Mário, o
Guedes, o
Stélio –
meus companheiros de blogue – mas é preciso, com rigor, falar do
Nuno Marques da Silva, do
Nuno Baixinho, do
Carlos Gonçalves e da
Inês Mauritti.
Era um grupo que se completava de forma surpreendente.
Ainda hoje acredito que devíamos ter seguido por outro caminho.
Havia uma segunda linha, constituída por aqueles que não alinhando nas frentes todas, eram gente inteligente e bem preparada, que estavam perto da decisão global, eram pelo menos o
Rui Rocheta, o
Tó Martins, o
Filipe Malheiro e a
Carmen Henriques.
E não me posso esquecer dos clássicos: o
Paulo Guilherme, o
Toni Duarte, o
Edgar de Almodovar, o
Miguel Varela, o
Xico Ribeiro, o
Xico Lopes, o
Figueiredo, o
Mano Henrique, o
Rui Pereira, o
António Mauritti, o
Gualter, o
Eisele, o
Júlio Serras, o
Jordão, o
Carlos Raposo, o
Pedro Isidoro, o
Mário Rui, o impagável
Julinho de Barcelos, o
Batata, a
Sofia Drummond e tantos, tantos outros, que podia ficar aqui a noite toda.
Crescemos muito, ganhamos muito, levámos e demos porrada, falámos com Presidentes, Líderes da Oposição, Ministros, Secretários de Estado, Reitores, Presidentes de Câmara e todos os que connosco queriam falar.
Fomos a programas de rádio e televisão, discursamos para 10, para 50, para 100, para 500 pessoas.
Em vez de um simples curso, fizemos vários, em simultâneo. Eram tempos em que se ganhavam Associações Académicas com 5000/6000 votos, havia que trabalhar a sério!
Não me arrependo de nada do que fiz!
Se pudesse fazia tudo outra vez!
Penso falar em nome de todos!
O tempo ajuda a relativizar a importância das coisas e hoje olhando para trás admito que levávamos as coisas demasiado a peito.
Mas a vida não é também isso?
Não há um tempo para tudo?
Se pudesse recuar, só pedia que se pudesse alterar uma coisa, um facto, um acontecimento, uma circunstância.
Nuno Manuel Anão Baixinho merece que lhe faça aqui, neste modesto reduto, muito singelamente, uma evocação especial.
Era estudante de Relações Internacionais e à noite ajudava o pai, proprietário de um táxi na margem sul.
Era brilhante no domínio das várias matérias da diplomacia, da política internacional e das relações internacionais.
Tinha uma forte capacidade de argumentação, era seguríssimo nas suas tomadas de decisão e forte no contraditório directo.
Aprestava-se para ser um académico de excelência, um diplomata de excelência, um político de excelência, qualquer coisa que ele quisesse de excelência.
Ele era daqueles que se distinguia entre mil.
Tinha uma faceta de tolerância que me agradava e que penso é apanágio de quem se pensa e sente, intelectualmente, num patamar superior.
Uma vez, uma única vez - só uma pessoa sabe disto, penso eu - zangou-se comigo.
Naquela altura, como agora, os políticos, mesmo os juvenis como nós, tinham a mania de falar no nº2, no nº3, no nº4 e por aí fora.
Entre nós, não me perguntem porquê, convencionou-se que eu era o chefe da banda.
O nº2, era o Nuno Marques da Silva, e depois por aí fora, o Pedro, o Mário, o Stélio, este, aquele, para aí até ao nº 500 que a gente não fazia a coisa por menos.
Os programas eleitorais pareciam as páginas amarelas.
O Nuno Baixinho, era visto pela entourage, para aí, não sei porquê, no nº 10, ou 11,ou 12, não sei.
Isto só se explica porque provavelmente a hierarquia era inversamente proporcional ao talento, caso contrário ele seria o nº 1.
Um dia pedi-lhe para falar com ele, a sós, numa sala isolada, dentro da Universidade.
Ia começar mais uma batalha eleitoral.
Disse-lhe, sem mais delongas: “ Baixinho, não falei com ninguém, mas quem vai liderar a corrida, desta vez és tu. Para mim, tu és o melhor, vais ser tu! Tu és o candidato!”
Ele olhou-me, tranquila e serenamente, e fumando cigarro atrás de cigarro, explicou-me porque tinha que ser eu a concorrer, numa conversa intimista que ainda hoje, passados 13 anos, sou capaz de lembrar palavra por palavra.
Terminou agarrando-me pelos colarinhos e do alto dos seus 1,90 cm de altura – apesar do nome – abanou-me, dizendo-me para eu não voltar a abordar o assunto e que estaria comigo para o que desse e viesse!
Infelizmente não viveu o suficiente para assistir à nossa vitória.
O coração do Baixinho resolveu parar de o manter agarrado à vida no fim de mais uma noite de conjurados na Rua Padre António Vieira.
Nessa noite tínhamos saído de lá com os olhos a brilhar, sentíamos que estávamos a dar passos grandes e lestos.
Tínhamos estado com um Reitor, que já não era Reitor, mas ainda era Reitor!
Parece confuso, mas era exactamente assim!
Íamos derrubar um Reitor e colocar lá outro!
Imaginem a excitação!
Com o desaparecimento do Baixinho, todos sofremos muito, foi um choque brutal, eu chorei copiosamente pela primeira e única vez na minha vida, até hoje.
Existem muitos homens que comem, falam, olham, mas estão mortos.
Mais mortos que os verdadeiros mortos.
E outros que morreram, mas permanecem vivos.
Nuno Manuel Anão Baixinho está neste número.
Pelo menos para mim, e para os seus verdadeiros amigos, que muitas vezes pensamos nele.
Em meu nome, do Pedro Guedes, da Inês, do Mário, do Stélio, da Sofia Drummond, do Nuno Marques da Silva, do António Mauritti, do Pedro Algarvio, do Rui Pereira, do Luís Tomé, e de todos os outros, quero envolver-te num abraço gigante desde a Senhora do Monte.
P.S. –
Naquele dia, não me convenceu.
Ele era mesmo o melhor!