Senhora do Monte

sexta-feira, janeiro 28, 2005

À laia de apresentação

O escriba destas linhas nasceu naquela que, para si, é a mais bonita cidade do mundo. Chamam-lhe, presunçosamente, a «Veneza Portuguesa». Bom, também não é preciso exagerar. Só pelo facto de termos uns canaizitos que nos trazem «cidade-dentro» braços dessa incomparavelmente bela «Ria de Aveiro», não é razão para presumirmos qualquer comparação com a verdadeira, a pura, a autêntica «cidade dos canais». Mas em todo o caso, é bonito de ouvir e faz bem ao nosso ego pensar que vivemos na «Veneza Portuguesa». Deixemos de lado, porém, essas minudências geográficas.
Pois bem - o escriba aí nasceu. Aí cursou a - antigamente designada - Escola Primária (hoje, pomposamente chamado primeiro ciclo) na altura em que ainda era obrigatório saber-se na ponta-da-língua os rios, as linhas de comboio, as barragens, as províncias e demais informações úteis, não só de Portugal como também das antigas províncias ultramarinas (que isso de colónias tinha sido coisa do salazarismo retrógrado).
E foi nessa altura, mais precisamente na quarta classe, que o escriba se deu conta que havia uma coisa chamada «política». Lá para o fim de um qualquer mês de Abril, nos alvores da primavera, a política deu ao escriba a primeira (única e última?) alegria: não houve escola porque uns senhores tinham feito uma revolução para derrubarem o governo. Mas então os governos derrubam-se? - pensou e perguntou o escriba. Disseram-lhe que sim! E ele acreditou. E depois, ingenuamente, deve ter começado a pensar que o governo tinha sido derrubado pelo pessoal do Benfica. É que, para onde quer que se virasse, só via bandeiras e panos vermelhos. Que não, que não - disseram-lhe. E então alguém lhe explicou o seu primeiro conceito de ciência política que o escriba interiorizou e que até hoje ainda guarda como válido: explicaram-lhe que «vermelho era diferente de encarnado». E disseram-lhe que encarnados eram os do Benfica. E desses podia e devia continuar a gostar. Mas que dos vermelhos, não. Nunca! Desses não devia gostar. E o escriba acreditou (com alguma dificuldade ao princípio, convenhamos. Mas também quem é que se lembra de ensinar ciência política, assim, a um puto de 10 anos?). Bom, a partir desse momento, seguiu-se o trivial percurso académico (liceal e universitário) sempre acompanhado a-par-e-passo de uma intervenção «político-estudantil» em associações académicas e daquela divisão maior cedo interiorizada: «encarnado é bom; vermelho é mau»!
Terminado o curso de direito que foi escolhido sem qualquer dúvida ou réstea dela e que se passou pachorrentamente na vetusta Universidade de Coimbra, efectuado o estágio advocatício, eis que por uma daquelas surpresas em que a vida é fértil, com apenas 25 anos de idade o escriba se vê envolvido no projecto de criação de um estabelecimento de ensino superior privado, que por confiança dos demais pares lhe incumbirá dirigir por longos 13 anos. E aí surgiu o afastamento da barra da advocacia e a aproximação às coisas da Europa - pelo facto de ter passado a leccionar disciplinas dessa área. Foi uma paixão à primeira vista, que ainda perdura e se mantém acesa e que já gerou alguns frutos impressos em letra de forma.
Sempre, tudo, a par de uma actividade política que começou numa das «jotas» existentes - já defunta por mudança de nome - e se transferiu para os séniores da instituição quando o líder da jota em causa resolveu candidatar-se à liderança da casa-mãe. Foram, aí, 6 anos de vivência por dentro da política numa dimensão mais ampla, mais nacional, o suficiente para concluir que essa dimensão em nada difere da dimensão paroquial, concelhia ou distrital. Os princípios (ou a falta deles) são os mesmos, as regras (ou a sua ausência) idênticas, os fins (independentes dos meios utilizados) muito semelhantes. E quando o líder saiu, o escriba saiu com ele. E durante outros 6 anos acreditou estar no caminho certo, acompanhando o ex-chefe na sua luta (inglória) para recuperar a liderança perdida e conduzir o barco a porto seguro - ao porto onde, com inegável mérito, o comandante seguinte o levou e o conduziu. Porque sempre entendeu que a amizade é um valor supremo, que deve estar para lá da política e bem acima dela. Hoje, tal como o líder da altura agora propala, também o escriba pode dizer que «Fomos todos enganados» - pois a vida se encarregou de demonstrar que há quem, para lá da política, mais nada veja e mais nada considere. Mas enfim, isso são contas de outros rosários e «estórias» de homens pequenos com egos grandes. Misérias humanas, diria o poeta...
E como «à laia de apresentação», o post já vai longo, e muito ficou por dizer, e outras «estórias» ficaram por contar - nomeadamente as que se prenderam com a passagem por esse domínio fabuloso do dirigismo desportivo - conclui-se por ora para se voltar noutra hora!

5 Comments:

  • Caro João Pedro,
    receba um forte abraço de boas vindas à casa.

    By Blogger Mário Antunes Varela, at 4:55 da tarde  

  • Caro João Pedro,
    Bom post!
    Lá tenho eu que levar com mais um lampião!

    Recebe um abraço e bemvindo ao ora nosso estabelecimento.

    By Blogger gelsenkirchen, at 5:07 da tarde  

  • ... Nem mais, como diria o "Grande Timoneiro do Império Lusitano onde o Sol nunca se deita":
    "Todos não somos demais para continuar Portugal"
    Bem vindo meu caro, nós os encarnados somos assim...

    By Blogger José Carlos Soares, at 6:41 da tarde  

  • A nossa contratação de Inverno já dá nas vistas. Bem-vindo . Abraço LPC

    By Blogger Lucout, at 6:45 da tarde  

  • wow,

    Um benfiquista e prof. de estudos europeus nesta casa, que é o meu caro amigo João Pedro Dias, e o Pedro Guedes nesta casa... sem palavras.

    Parabéns!!!

    By Blogger golfinhu, at 6:40 da manhã  

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