Senhora do Monte

quarta-feira, dezembro 29, 2004

O melhor de 2004

E, tão certas como o Natal dos Hospitais, as proverbiais listas de fim de ano. Não os compromissos para o ano vindouro, rapidamente esquecidos. Antes a recordação do melhor que passou pela (ou chegou à) paróquia, no que à arte e cultura diz respeito. Objectos, sons e imagens que tão depressa não cairão no olvido deste escriba.

Música

Na clássica, destaque para a Sinfónica Portuguesa. Segundo os críticos, é uma orquestra de performances muito desiguais. Que o seja, acrescento eu, se todos os anos nos servir duas interpretações com a beleza e profundidade emocional das de “Daphnis et Chloe” (Ravel), dirigida por Josep Pons, e “Canção da Terra” (Mahler), regida por Jeffrey Tate. A Gulbenkian, mais certinha, não deslumbrou tanto. Ainda assim, realço a leitura do Concerto para Viola e Orquestra de Penderecki feita pelo próprio compositor. Roberto Diaz foi o instrumentista convidado.

No jazz, assisti a dois concertos formidáveis. O conservador Estoril Jazz apresentou o quarteto de Branford Marsalis, que nos brindou com um banho de música, digno de mestres, resultado de muitos anos de trabalho conjunto. No vanguardista Jazz em Agosto da Gulbenkian, o quinteto de Otomo Yoshihide, com Mats Gustafsson no saxofone, surpreendeu tudo e todos, num concerto difícil, mas recompensador.

Quanto ao pop-rock, destaco as apresentações de Ben Chasny (Six Organs of Admittance), um guitarrista virtuoso que mistura a música rural folclórica dos Estados Unidos com ragas indianas e outras inspirações orientais, e Lhasa de Sela, figurinha aparentemente tímida, uma nómada americana, filha de um canadiano e uma mexicana, neta de libaneses (hoje vive em França). Um caso sério de popularidade que em breve chegará ao Coliseu, nem que seja por fazer questão de cantar (muito bem) fados de Amália e falar em português cada vez que actua por cá, receita certa para o delírio provinciano.

Não ouvi muitos discos deste ano. No entanto, chamo a atenção para as canções de produção sofisticada dos franceses Air (“Talkie Walkie”), aponto o psicadelismo suave dos bucólicos Espers (“Espers”), assinalo a doçura pop do segundo longa-duração dos noruegueses Kings of Convenience (“Riot on na Empty Street”) e termino com o álbum a solo de Brad Mehldau, espécie de Keith Jarrett do século XXI. Sem querer chocar ninguém, garanto: “Live in Tokyo” é, pelo menos, tão bom quanto o famosíssimo “Köln Concert.”


Filmes

O meu preferido foi “Lost in Translation”, uma impressão invulgar sobre uma fugaz história de amor entre uma jovem mulher de um fotógrafo pop e um actor americano de meia idade. Bill Murray pode não ser o actor preferido de muita gente, mas nunca o seu underacting se adequou tão bem a um filme. Sofia Copolla filma Tóquio, os hotéis, os japoneses como um gigantesco e exótico mundo paralelo. E fá-lo muito bem.

Destaco ainda a continuação da paródia “Kill Bill” (Tarantino menor, ainda assim Tarantino), o “Despertar da Mente” (mais uma interessante invenção do argumentista Charlie Kaufman), “Terminal de Aeroporto” (Spielberg para quem gosta de Capra e James Stewart), A Vila (Shyamalan para quem gosta do Spielberg dos early days), e “Antes do Anoitecer”, a continuação do filme de culto mais palavroso de sempre, “Antes do Amanhecer”. Desta vez, o encontro é em Paris e o filme ganha com o tom doído da maturidade. Permanece o sorriso de Julie Delpy.


Acompanhei com menor proximidade as outras artes. Ainda assim, aqui ficam algumas notas sobre o ano que passou:

- “Democracia”, uma interessante peça centrada na relação pessoal de Willy Brandt e Gunter Guillaume, protagonistas de um dos mais famosos escândalos de espionagem da Guerra Fria;

- “Pedro e Inês”, magnífica coreografia de Olga Roriz, espectáculo de uma leveza que me conquistou definitivamente para o campo dos apreciadores da dança contemporânea;

- “Mass and Empathy”, as esculturas de Anthony Gormley, silhuetas humanas simultaneamente densas e imateriais que povoaram os espaços da Fundação Calouste Gulbenkian;

- Tapio Wirkalla, um impressionante exemplo de criatividade prática. Design finlandês, patente numa exposição do Centro Cultural de Belém.

Infelizmente, não vi as obras de Gerhard Richter, expostas numa retrospectiva do criador austríaco no Museu do Chiado. Sr. Berardo, se estiver a ler isto...

Bom ano novo!

1 Comments:

  • tambem recomendado por ti, agora tenho mesmo q ver o lost in translation e o despertar da mente.
    air , claro, muito, muito bom!
    abraço

    By Blogger gelsenkirchen, at 2:32 da manhã  

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