Senhora do Monte

terça-feira, dezembro 28, 2004

Interioridades

Escrevo desde Vila Nova de Foz Côa.
Por aqui, Natal e Caça são indissociáveis, já que a família da minha mulher é uma família de caçadores, bem como uma parte considerável da população masculina da terra.
O gerente do Banco, é caçador; o produtor de vinhos, é caçador; o chefe das Finanças, é caçador; o agricultor, é caçador; o padre, é caçador; todos são caçadores.
Eu acabo por alinhar - apenas na parte lúdica da questão - um pouco por arrasto.
Como nos últimos doze anos, passei aqui cinco ou seis natais e venho até cá algumas vezes durante o ano, já fui adoptado como filho da terra, e por força das tainadas, conheço os melhores caçadores da região e domino razoavelmente os meandros da discussão à volta do tema.
Ontem, por exemplo, fizemos uma tainada – com malta do Clube de Caça e Pesca – à volta de uma açorda de frades e de um borrego assado a lenha, que até fazia salivar as pedras da calçada.
Durante toda a tarde e toda a noite, falamos sobre tordos, perdizes, cães, coelhos, lebres, pombos bravos, rolas, brownings, benellis, winschesters, de reservas associativas, de caça livre, de bandos, de bater os montes e de "biquinhos".
Falamos da importância da recolha e partilha de informação na caça, ao jeito de "quem tem mais e melhor informação é melhor caçador", por outras palavras, imaginem dois grupos de caçadores que se encontram na estrada e um grupo pergunta: "Para onde vão?" e o outro responde: " Para lado nenhum!". A informação é tudo, ou quase tudo, basta juntar-lhe a arma certa e a pontaria afinada!
Falamos da competição entre os verdadeiros caçadores, que é acessa e feroz. Dizem, manhã cedo: "Boa sorte!", na realidade, querem dizer: "Espero que venhas com o cinto vazio!".
E até de contratações falamos. Um primo meu que se vai encartar em breve foi intensamente disputado por duas facções rivais.
Mas falamos também de Política. Das questões associativas e autárquicas e principalmente das nacionais.
E aqui, à volta deste tema, percebi que o Revanchismo anda aí à solta pelo país, desde as aldeias, vilas e cidades, até à imprensa em geral.
Mas este é um tema que merecerá oportunamente um post autónomo.
Entretanto, o que não há por cá, é acessos à Internet.
Como escrever se transformou num vício incontornável, tenho resolvido o problema com algumas notas que tenho debitado no meu Moleskyne, e que agora, que apanho aqui um computador emprestado a jeito - com um acesso analógico - vou verter para posts.
Ainda não sei quantos. Já se verá!
Entretanto, só aqui deverei voltar para o ano.
Até lá, um abraço, boas entradas e um bom ano de 2005 para todos!