Tenho pensado escrever sobre o tsunami de dia 26, tenho mesmo chegado a tentar mas acabo por desistir. O que quer que se possa escrever será sempre redutor, será sempre pequenino e insuficiente, será sempre insignificante face às dimensões de um desastre como aquele. Pensando ou, pelo menos, tentando fazê-lo, chego à conclusão que parte do meu horror faz feudo no facto de ter visto nascer o inferno em alguns dos locais que me serviam de referência para ilustrar o paraíso, o meu, a ideia que dele faço.
Hoje, quando uma vez mais me abeirei do computador, li com gosto, como aliás sempre acontece, um post do Luís Pinheiro Coutinho. Li com gosto mas não posso concordar.
Numa situação destas, confesso, não sei se muito haverá a fazer. Sei, isso sim, que muitos dos que dizem que muito há a fazer se limitam a isso mesmo, nada fazendo. Sei também que em situações limite, de fronteira, em situações em que a expressão "de vida ou de morte" ganha um significado diferente daquele em que, por regra, é utilizado, muito do que há a fazer não se traduz em grandes meios, humanos e/ou materiais, em grandes planos e na sua execução, em grandes obras e ideias. Sei, isso sei, que muitas vezes, nestas situações, uma palavra, um abraço, um olhar podem significar tudo. Sei que é lirismo mas sei que é assim.
Sei eu, sabe o Luís Pinheiro Coutinho, sabe o senhor Embaixador João Pimentel, sabe o senhor Ministro António Monteiro que cada cidadão português é efectivamente representado por todas e cada uma das representações diplomáticas da UE em cada um dos territórios e países afectados. Não é uma possibilidade é uma realidade, todos os cidadãos comunitários são representados pelas embaixadas e consulados dos países membros na impossibilidade de obtençaõ de apoio das suas próprias representações diplomáticas.
Também sabemos todos, dita-o o bom senso, que o Embaixador Pimentel pouco iria fazer para a Tailândia. Estava em Portugal, não tinha informação, só agora as autoridades tailandesas disponibilizam dados acerca das mortes confirmadas, não ia atender telefones...
Também sabemos que, ainda que o embaixador Pimentel tivesse ido na hora que se seguiu à notícia, continuariam a existir críticas de portugueses, de familiares e de políticos, de partidos de oportunistas e de parvos.
Isto é pois o que sabemos todos.
Passemos agora àquilo que todos sabemos excepto o Embaixador Pimentel.
Sabemos que Pompeia Sila caiu em desgraça aos olhos de César não por que não fosse séria mas por falta de o parecer.
Sabemos todos, menos o senhor Embaixador e talvez o senhor Secretário de Estado, por quem tenho aliás estima, sabe até o senhor Primeiro Ministro que o embaixador tinha que partir de imediato. Mesmo que não fizesse a menor das faltas, que a sua presença não tivessea a menor das utilidades, que não servisse para minorar a dor de um só português, de um só pai, filho, marido, irmão.
O senhor Embaixador tinha pura e simplesmente que ter sido sério e, ao mesmo tempo, tinha que o ter parecido. Tinha que ter tido, como é sua obrigação, sensibilidade, coragem disponibilidade, abnegação. Tinha, como todos sabemos, que ter ido para, mais que não fosse, ouvir, abraçar, consolar, chorar com.
Sabemos que tudo quanto é lógico, correcto, normal, não faz qualquer sentido para alguém que num momento está com um filho de oito meses nos braços, numa praia do paraíso, e segundos depois perdeu esse filho, às mãos do mar, no meio do inferno. Sabemos que uma palavra é diferente quando é dita em português. Sabemos que é verdade, já todos o sentimos, não é pieguice é o nosso sentir. O nosso, não o do senhor Embaixador que, pelos vistos foi, mas foi obrigado.
Se não foi, como sugerem as palavras do Primeiro Ministro, por sua iniciativa, pergunto-me em que situação entenderia que se justificava interromper as suas, por certo merecidas, férias na Pátria Lusa.
Bem sei, caro Luís, que por vezes se torna insuportável de aturar o "...tom já impossível de aturar dos jornalistas que em qualquer assunto procuram não o essencial mas aquele acessório que ataque mais o Governo. O jornalista queria porque queria que o assunto não fosse a tragédia que atingiu milhões de pessoas na Ásia, mas a culpa do Governo no assunto..." mas, por uma vez, nada disto importa.
Na minha opinião, assinada, Sua Excelência o Senhor Embaixador da República Portuguesa no Reino da Tailândia é uma CAVALGADURA.
A minha opinião, meu bom Luís, é, por uma vez, parecida com aquela que João César Monteiro, de quem nunca fui particular admirador, tinha a respeito do público e da crítica.
Por uma vez, Luís, queria que o senhor Embaixador, o senhor Secretário de Estado e todas as opiniões, também a minha, se...
E queria que o mundo voltasse ao dia de Natal.
Que este Natal fosse Santo e que os nossos voltassem a nós, os filhos aos pais, e o senhor Embaixador fosse ver a "Branca de Neve" de João César Monteiro. Escuro, tudo escuro, uma boa merda, como a atitude que teve.