Caiu o governo
E aleijou-se alguém...?
Anda mais de meio mundo a gozar com o congresso do PC e com o novo conducator, sem esquecer o meu amigo Patrick que passou toda a santa sexta-feira deste blogue a cascar no reviralho. Pois ao contrário do que seria talvez de esperar, eu acho engraçado registar que é português o partido mais estalinista do mundo - não se vos ocorra qualquer dúvida que face ao centralismo democrático do velho PCP, o funcionamento interno do PC Cubano é brincadeirinha de crianças. Quanto a mim, o que é curioso observar no PCP é a organização, notável a todos os títulos. Os congressistas não dormem enquanto os outros falam (bem diz o ditado que quando um burro fala o outro baixa as orelhas), os horários são religiosamente cumpridos facilitando os directos televisivos, ninguém lê o Record enquanto Carvalhas abre o bico, só um ou outro oportunista é que ousa combater Domingos Abrantes e é certo e sabido que este Abrantes é um prato...! As pessoas vão tendo cada vez mais a tendência de reparar apenas nos nomes que a comunicação social faz por oferecer e sendo assim, deslembram-se do bom do Abrantes, uma injustiça para este metro e cinquenta e picos de estalinismo puro e duro. Empenhada que está em levar ao colo os chamados "renovadores" - tontos de olhos em bico em vista de um bife no Tavares Rico, uma centena que seja de oportunistas em busca de tacho à mesa do orçamento e em rápida transição para o socialismo democrático e burguês - a imprensa esquece os nomes dos que de facto tornam aquilo possível e agitam sem cansaço as células sindicais.
Vi há pouco uma imagem do encerramento do congresso do PC em que um militante chorava enquanto entoava a "Internacional". Como facilmente calculam, eu quero mais é que a "Internacional" vá ter meninos no alto de Santa Catarina. Mas gosto de verificar que neste mundo ainda há gente com convicções que não se trocam por um prato de lentilhas ou por um posto de deputado. São convicções cretinas, é certo, mas são convicções. E se sou insuspeito quanto a gostar de comunas, bem asseguro que é dos ditos "renovadores" que eu não gosto mesmo nada.
Será que o sentido de humor, a ironia, a sátira, a crítica mordaz, poderão servir para ocultar ou manifestar as posições que convicta e seriamente defendemos e pretendemos divulgar?
Será esse um bom registo?
Será esse um caminho entendível?
Sabes bem que dos treinadores que no meu tempo passaram pelo Belém, estás entre os que mais foram credores do meu respeito e da minha sincera estima e simpatia. Gosto de ti, sei que não tens dúvidas quanto a isso e é essa a razão que me leva - em público - a desabafar estas linhas revoltadas. A verdade é que se na passada época do pontapé na bola já andavas a mijar fora do penico, este ano estás a passar das marcas, porra! Bem sei que és da Académica desde pequenino e que a doença é forte. Acresce que sei não ser tua a culpa de comentares jogos da Briosa na Sport TV; a responsabilidade é de quem te contratou. Mas porra, Vítor! Quando corerram contigo do Restelo de forma ignóbil - sabes que é isso que eu penso - quem é que esteve sempre ao teu lado? Os sócios do Belém, homem! A Fúria! O pessoal dos Pastéis... Já não te lembras? Queres que te faça um desenho? E na época seguinte ao teu despedimento, na ida do Belém a Coimbra, lá estavas tu ao pé da malta, ali na geral, à chuva. Ainda não se te tinha olvidado a injustiça, essa é que é essa... mas o tempo passa, bem sei...
E quando te deu um treco na Madeira? Lembras-te de quem se preocupou? De quem tentou saber de ti, saber se te safavas? Bem sei que o mundo do futebol não se recomenda, meu caro Vítor, mas também não te ficava mal manifestares um pouco de gratidão por quantos te quiseram bem - sempre! E no final de contas, porra, nem sequer consegues ver aquela falta que dá o primeiro golo da Académica...?! Foda-se, Vítor. Estás diferente. Eras um gajo justo e simpático, vias a chunga do futebol de cima. E agora, ao ouvir na televisão os teus comentários, dou comigo a pensar que te deram a volta, ou que ainda não desconfio o suficiente da espécie humana. Estás quase igual a eles, Vítor. Pira-te daí que ainda vais a tempo, Homem de Deus! Deixa essa escumalha entregue à sua sorte, mas abre lá esses olhinhos às faltas da Briosa. E já me esquecia: deixa o Jorge em paz, pá. Bem fizeste por ver ali uma falta, um fora de jogo que fosse, uma treta qualquer. Mas nada, meu caro. A televisão, a cada repetição, mais fazia desabar o teu desejo: o golo é limpinho da silva. E tudo isto com um puto, meu Deus! Com um puto que ainda no sábado tinha jogado pelos juniores, calcula. E logo tu; tu que tinhas por eles o carinho que ambos sabemos...! O miúdo não merece, porra!
Deixa-te de merdas, Vítor. Deixa-te de merdas e apesar de tudo, aceita um abraço deste teu amigo que te quer bem.
Vincent Van Gogh
Sonia Delaunay
Market at Minho, 1916
Diz a corrente pró-impressionista deste blogue que a arte abstracta não lhes diz grande coisa. Pois eu escolhi exactamente uma pintora , Sónia Delaunay, que a par do seu marido Robert são dois vultos incontornáveis da arte abstracta, mais concretamente do cubismo. Nascida na Ucrânia, Sónia e Robert estavam em Portugal, em 1916, no momento em que a Alemanha declarou guerra a Portugal, enquanto aliado da Grã-Bretanha.
Viveram em Vila do Conde e pintaram alguns quadros sobre o modo de vida dos portugueses que os fascinou, especialmente a Sónia. Este quadro pode muito bem representar a feira da minha cidade natal, Barcelos, que como é sabido rivaliza com Espinho o título de maior feira semanal do país. Curioso é também saber que o casal Delaunay foi preso pela Polícia Portuguesa e encarcerado no Porto. Eram acusados de, no pátio da sua casa em Vila do Conde pintarem algo que se assemelhava a alvos e poderiam estar com isso a trabalhar para a Luftwaffe. Só a intervenção do seu amigo Amadeo de Souza-Cardoso lhes permitiu sair da cadeia e abandonar o país…
Neste quadro julgo que o nosso Patrick já encontrará algo de familiar… É um quadro que está no Centre Georges Pompidou e que esteve em exposição no Porto, no Museu Soares dos Reis no âmbito da Porto Capital Europeia da Cultura de 2001.
Parece-me inteligente sugerir a leitura das entradas de Francisco José Viegas em volta deste assunto. Entram no blogue e seguem a série "Seja Saudável", na certeza de que FJV escreve muitíssimo melhor do que eu. Para rematar, visitem o À espera dos bárbaros. Bom domingo, bons fumos e boas leituras.
Esta coisa de nos quererem impedir de fumar um cigarro num restaurante ou num bar é muito mais séria do que parece. Não sei se repararam na última edição da Grande Reportagem, que ontem dava conta da preferência que a TAP (uma empresa que vive ainda que indirectamente e entre outras benesses, dos impostos sobre o tabaco) manifesta desavergonhadamente nos seus concursos de admissão de pessoal por não fumadores. Num país em que ninguém se escandaliza com nada, a coisa vai passar de mansinho. Na mesma nota, salvo erro (que isto vai de memória) assinada por Torcato Sepúlveda, diz-se que um notável economista alemão - e que vai fazer escola, vocês vão ver...! - entende que as empresas devem descontar nos já de si miseráveis vencimentos pagos ao final de cada mês o tempo que os seus "colaboradores" - é como se diz na banca moderna e é muito mais chique, que a parolice ainda não paga imposto - gastam a fumar um cigarrito ou a beber uma bica nos campos de concentração montados para o efeito.
Tudo isto são sinais; sinais que preocupam. E preocupam porque denotam essencialmente estupidez, ignorância e um totalitarismo de costumes inadmissível. Pessoalmente, não tenho o hábito de fumar onde isso não é permitido e faço por cumprir as regras, do mesmo modo que faço por não fumar, por exemplo, ao lado de mulheres grávidas. Acresce que admito perfeitamente que existam restaurantes onde não é permitido fumar. Quem não fuma sente-se bem e eu não sou obrigado a frequentá-los. Não contesto e se me convidarem para uma festa em tal sítio, ou digo que não vou ou invento uma converseta que de imediato me torna adoentado de momento. Ou seja: convivo com as regras no melhor dos mundos, desde que elas não se metam com a esfera do que me é pessoal. O que me parece de todo intolerável é que não possa existir um restaurante em que se possa fumar. Porque ao contrário da cantilena anti-tabagista, a liberdade dos puristas da saúde acaba justamente no ponto em que tem início a minha liberdade. E eu tenho a liberdade de fumar quando me apetecer, num local exclusivamente frequentado por fumadores ou por quem os tolera. O resto é conversa fiada e de fraca erudição.
Se o Orwell aterrasse aqui hoje, haveria de se querer ir embora de imediato. E escrever o "1984"? Nem pensar nisso. Quando a obra é a realidade, torna-se difícil escrever ficção.
Permitam-me a intromissão, mas não há colecção dos melhores congressos partidários sem os antológicos meetings after-hours dos nossos amigos Populares. Relembro apenas o dia em que ficámos suspensos, à espera de saber o que a Dra. Maria José Nogueira Pinto "sabia que eles sabiam que ela sabia que eles sabiam".
Se a memória não me falha, no mesmo congresso, o actual Ministro do Mar - "quem, eu???" -, então candidato a líder do PP, entrou a galope no pavilhão gimnodesportivo municipal, deu um beijo de morte à sua criatura (também conhecida por dr. Monteiro) e deixou até hoje em suspenso o braço do (politicamente) extinto Nuno Fernandes Thomaz.
Paulo Ossião
Em tom mais leve do que o PG, já pensaram nos reflexos que esta medida de proibição de fumar nos locais públicos vai ter no âmago das relações pessoais, numa sociedade como a nossa, onde a possibilidade de fumar onde se quisesse ainda era um bastião de resistência a um dos fundamentalismos pretensamente “benignos” dos nossos tempos e no qual os Americanos são o expoente máximo?
Lembro-me da terrível implicação que isto terá nas relações entre maridos e mulheres (ou significant others ) perante a iminência de terem de entrar na Zara ou afins sem a desculpa de ficar cá fora a fumar um cigarro…
Já pensaram na pressão psicológica que estes desgraçados terão de enfrentar, e para a qual não estão de todo preparados? Sim, porque homem que é Homem entra na Zara e enfrenta o desafio com dignidade e não fica à porta a fazer aquela figura triste que vemos nos nossos Centros Comerciais. Nem sequer conversam uns com os outros, os pobres…
Nem todos estão à altura do desafio, de permanecer num ambiente completamente hostil e ter de tomar posição sobre questões essenciais como “Gostas mais deste ou daquele que vimos na Massimo Dutti?” . Parecem-me iguais…” diz o infeliz não reparando que o item que lhe é apresentado tem mais um botão do que o outro! É uma pressão psicológica atroz!
Uma amiga minha diz que o marido, que é Homem, entra mas bufa. Sim, cumpre o seu papel mas demonstra o seu descontentamento! E agora acabando a desculpa de fumar cá fora como vai ser? Aproveitarão os espertalhões com olho para o negócio para colocar um quiosque com abundante imprensa desportiva à porta desses estabelecimentos? Talvez não e não sei mesmo se isto não levará a médio ou longo prazo a um aumento significativo de divórcios. Pois é….quem legisla cada vez pensa menos nos reais interesses das populações.
LPC
As “Santanetes” de Leninegrado ocupam o camarote do Czar... Ah! Coitado do Nicolau! Soubesse ele que não se pode fumar sentado!... Militantes ao fundo, endomingados. Um exército de “nomes”!... Rectifique-se: riqueza de talentos “médios”... Mas com um tal ardor... um tal brio de palco! Que Vida!... Insensata!... Por certo um grupo muito mal alimentado! Como os deprimiram?... Foram-se todos, rumo à Razão... A Razão paga-lhes bem... Só falam de Razão... razoavelmente... Uma série de sinos tão rachados... Lá estão eles, a derrearem-se todos de Razão... Paciência!... O Ministro bate com as mãos e pede silêncio. Vai falar... O pobre!... No fim felicito-o.
- Como está? Vai uma passa?
Há olhos que nos seguem no fundo de todas as sombras, a espiar-nos... Olha a grande coisa no tempo que corre! Para a rua, depressa! Ah! Que alegria! Sou arrebatado pelo delírio de um cigarro! Ficaram para trás... os peganhentos! Que rataxórdia! De pepinos!... Sinistros! Eu borrifo-me... Pego no isqueiro e levanto voo! Quero lá saber dos borra-botifóides!... De escumarilha! Que até me comicham os vesúvios!... Fico com o cigarro. De pedra e cal! Stakhanoviciadores!... Parolos!... O que Bruxelas proíbe é lei! Um sistema comunista sem comunistas. Uma pena! Mas não pode transparecer nada! Quem disser “pára” será enforcado! E a bica? A sacana da bica? Ainda posso beber...? Ou também não...? Tratem de as abolir! Verão que eram tais e quais... Digo tais e quais e só isso... Refugo de atarantados! É terrível o cheiro do estrume!... Ora gaita!... divago... ai que se me vai o fio à meada!... o caminho em ziguezague...
Fui almoçar com o Rancotte. Está de cigarro na boca e não se preocupa. Diz que os fiscais se mijam um pouco pernas a baixo... e depois?... O que tem isso?... que grande importância, não haja dúvida! Morrem de morte mais serena!... Lá aparece a bófia dos costumes.
- Bravo, bravo! Que belo serviço!Que malandrice, hem, meus passarocos! Pois com certeza! Pois com certeza! Já vos arranjo! Esperem lá só! Esperem só, que me vão ver! Toda a gente para fora! E esperem pela medida grossa! A fumar num restaurante! Já estou daqui a ver uma data de porrada! Um! Dois! Um! Dois! Três! Quatro! Vai ser uma farra! Vou regalar-vos! Em frente! Marche!...
No grupo há um que é do reviralho! Sabe que escrevo e diz que me pire. Estalinistas armados em missionários!... Era o que me faltava!... Um aguçar de agonias!
A frase que titula esta entrada é também o título do primeiro romance "entretido" (como diria o mister Quinito) do advogado José Pinto Carneiro, que viu a luz em 1994, estava eu e mais uns escribas aqui da casa à beirinha de passar para o clube dos licenciados. Pois saibam vosselências que me veio à memória o nome da obra - recomendável, aliás - por conta da demissão agora anunciada de José Rodrigues dos Santos lá no serviço público de televisão. Tudo isto depois da peregrinação diária ao blogue do Clark59, que em matéria de informação e tal qual como nós, não quer que vos falte nada. Ora vejam aqui o que diz o Libelinha.
Não suporto falsidades; tiram-me do sério. E se assim é, nunca poderia passar sem contraditório a tese já aqui defendida pelo Patrick de que os conclaves laranjas são bons porque Santana Lopes é o melhor em congressos. São mas é o caraças, nada mais falso e revelador de memória curta! O que o meu companheiro de blogue aqui deixou gravado para memória futura foi uma tremenda injustiça para com um homem que nasceu politicamente do zero e que chegará a ministro a pulso. Aqui lhe deixo a minha profunda homenagem:
Muito se tem dito e escrito sobre a morte de Yasser Arafat como momento decisivo, como condição sine qua non para o avançar do processo de paz no Médio Oriente. Parece que era apenas Arafat o obstáculo e que com o seu desaparecimento Israelitas e Palestinianos terão agora condições para desbloquear o processo de paz.
E se Arafat vivo fosse mais útil para o governo Israelita do que morto como aparentemente poderia parecer? Um inimigo irredutível legitimava a acção unilateral de Sharon, e a não dissociação da Fatah de Arafat da Intifada, que voltou a ser o cenário desta interminável questão dificultava a simpatia internacional com as pretensões palestinianas. Um líder novo que seja suficientemente consensual no seio dos palestinianos ( difícil, mas possível), com o Hamas ou pelo menos sem a oposição do Hamas, será o pior que poderá acontecer a Sharon.
O Estado de sítio em que Israel está e a sua justificação na intransigência de Arafat perdem sentido num cenário de aproximação dos palestinianos à mesa das negociações. O apoio político (sempre precário em Israel) de Sharon poderá não se manter num novo cenário. È importante recordar que um dos, ou mesmo o momento de maior permeabilidade do Governo de Israel à negociação culminou com o assassinato de Isaac Rabin às mãos de um fundamentalista judeu.
Será o povo israelita, quer nas opções políticas que tome no futuro, quer na aceitação da inevitabilidade das concessões a fazer, nomeadamente como reagirão os colonos, especialmente de Gaza, que determinará o evoluir deste milenar problema.
Sem essa componente nem Abu Maser, nem Abu Allah, nem qualquer outro possível líder da Autoridade Palestiniana terá o efeito desbloqueador que se pretende atribuir a esta sucessão.
LPC
Aqui atrás, discorre o Patrick sobre o referendo à Constituição Europeia. Vai ser uma espécie de plebiscito; todos de acordo nas costas dos portugueses, diz ele que ganharão de capote, pelo que a coisa quase não se justifica. Pois que seja. Que seja, mas que os papelinhos sejam contados que até ao lavar dos cestos é vindima.
A este respeito, este que assina estas linhas tem pouco a temer: fez a campanha do "não" ao referendo sobre a legalização do aborto a pedido. E o diabo é que ganhou, apesar de todas as televisões e demais meios de (des)informação garantirem, noite dentro, que a vitória esmagadora do "sim" era mais do que previsível. Recordo-me perfeitamente da noite eleitoral no Hotel Penta e de como terminou cabisbaixo o politicamente correcto. Desde esse dia que não tenho medo de votos. E quem é pelo "sim" não tem que ter piedade do adversário; tem apenas que aceitar a tão apregoada vontade popular. Que depois do assassinato de bebés venha então o polvo europeu! Cá estaremos para dar conta do bicho.
Os meus companheiros de blogue andam dados às artes - à pintura, mais propriamente. Fazem eles muito bem que eu vejo e aprecio, sendo área em que de todo não me sinto à vontade. Vou mais pela poesia, pela estética da mensagem. Essa sim, tira-me do sério, como se diz nas novelas que fazem o desfavor de nos inundar. E em semana em que ficamos a saber que nos pilharam a zona económica exclusiva com conivência dos que desmandam, recorde-se António Manuel Couto Viana - poeta maior entre os vivos - que com notável acerto, escreveu como segue há quase trinta anos:
Este mendigo, outrora, era um menino d'oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!
Já nem isso resta, não senhor...
Wassily Kandinsky
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Komposition VIII, 1923
Berthe Morisot
O Berço, 1873
Segundo a memória familiar, no dia em que nasci, o velho Fusca viu-se em apuros para ultrapassar os rápidos criados pela chuva forte na esburacada Estrada de Sintra. A alegria no quarto do hospital onde vim ao mundo, ali para os lados de São Sebastião da Pedreira, contrastou com a solenidade das condolências oficiais pela morte de Golda Meir.
Os primeiros anos foram de rotinas pacíficas, num subúrbio semi-campestre de casas rasas. Depressa esse mundo desapareceu. Gastei as últimas brincadeiras com o meu avô materno atirando seixos planantes sobre enormes crateras alagadas, prenúncios dos primeiros prédios altos de Massamá.
A querosiana estrada engordou, perdeu os buracos e ganhou nome de formulário (IC 19). Pelo caminho, mudei de hábitos. Dividi a escolaridade obrigatória entre um acolhedor palacete da Rua Artilharia Um, infelizmente transformado num parque de estacionamento, e uma moderna construção de inspiração Lego, no Alto dos Moinhos.
Seguiu-se o capítulo universitário, onde optei por Económicas, no vetusto instituto vizinho da Assembleia da República - o mais perto que estive da vida política activa. By the way: sou um democrata (convém começar por aqui); defendo que, garantidos os princípios fundamentais de um Estado de Direito, não deve haver interferência nos estilos de vida e valores de cada indivíduo; sou por um papel importante do Estado na redistribuição dos recursos e na solidariedade social.
Artisticamente, comecei a formar o meu gosto numa cinemateca chamada RTP2. Daqui, o interesse dispersou-se pela música, pela literatura, pela fotografia e pela pintura. Não deixo também escapar a oportunidade de uma viagem, que considero, juntamente com a arte, a melhor forma de nos conhecermos. Que este blog sirva para o relato desse contínuo processo de conhecimento.
Alea jacta est.
Há bocadinho vi uns tempos de antena antigos da velha campanha do Miguel Esteves Cardoso para o Parlamento Europeu. Apareciam por lá, para além do candidato, Vasco Pulido Valente e o nosso ilustre Ministro da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar (que entretanto deixámos de ter). Os textos então debitados pelo Paulinho das feiras na aventura eleitoral intitulada de "Olá Europa, Viva Portugal!" são um must para a próxima campanha do "Não" no referendo à Constituição Europeia. Se alguém envolvido na respectiva organização precisar de cópia de tão preciosa fita, que faça o favor de pedir. Para informar a Nação.
O Manuel Alegre é o fulano mais noctívago da minha rua - a seguir a mim, evidentemente. Chega mesmo a haver dias em que a luz do seu escritório - presumo que será o escritório - se apaga depois da minha. Eis a trova do tempo que passa.
Com excepção do Antunes Varela júnior que tem falta justificada por estar no Brasil a apanhar sol e descontando-me a mim, ao Patrick e ao Luís, que é feito dos restantes? Auto-sanearam-se ao tiro de partida?
... tenho dificuldade em responder ao Patrick. É que se existe questão que distingue a direita da esquerda é justamente a da natureza humana e da sua eventual bondade. A direita não vai por aí e essa é matéria dogmática, não tem volta a dar... basta ler os autores. Ainda assim, as contradições são claras. Diz o Patrick que caminha pela via da "direita reformista", para logo de seguida avançar que acredita na direita que "não aceita a redução da política à questão económica". Mais uma vez, nada mais errado. Não aceitam os reformistas outra coisa...
Mas como dizes, havemos de voltar aqui. Que Deus nos dê tantos anos de vida como dá golos ao Antchouet.
Nunca pensaram em por a vida em “pause” enquanto se vai lá dentro buscar uma cerveja à cozinha? De por um momento sermos nós a determinar quando as coisas acontecem e não elas a determinarem o que nós somos e o que fazemos. Observar sem tempo, analisar sem emoção. Mudaríamos alguma coisa na sala para estarmos mais confortáveis quando carregássemos no play? De quanto tempo necessitaríamos para nos pormos mais confortáveis? Mas se o tempo parou o que isso importa? Se assim de repente não encontrássemos nada para mudar, isso quereria dizer que seríamos felizes?
Nem sequer mudar uma almofada ou acender um candeeiro para ver melhor aquele cantinho no qual nunca reparámos mas que era onde a cama estava no chão quando não tínhamos ainda os móveis. Já foi o local mais importante da casa e agora mal o vemos.
Não podemos por a nossa vida em pause mas podemos vê-la com algum distanciamento, quando queremos. E podemos reavaliar as nossas metas por baixo, como faz o Banco Central de quando em vez . Mas aproximar as metas não é batota? Não sei, mas se não posso ter o Maserati 3200 GT, porque não ficar feliz porque o carro que comprei gasta menos e é muito mais confortável do que o anterior? Mesmo que tenha um apito irritante a ordenar-me que ponha o cinto.
Penso que muitos dos nossos problemas e das nossas insatisfações passam exactamente por não pararmos de vez em quando o filme e reavaliarmos as nossas metas e prioridades.
Mas se, na ânsia de continuarmos com o filme da vida, com a curiosidade avassaladora de saber o que vem a seguir, carregarmos no play, teremos perdido uma boa oportunidade de sermos, nem que seja um pouco, mais felizes
LPC
“Any way the wind blows, doesn’t really matter… to me.” Queen, “Bohemian Rhapsody”
Saibam que acompanho com muito interesse a excelente discussão, e acho que é mesmo uma conversa “às direitas”. Mas, com pena, meti a política na gaveta, embora saiba onde está a chave. Desde o dia em que alguém (que se acuse se quiser) conseguiu humilhar a direcção de uma Juventude Partidária com a simples e já célebre frase “ Martim, de ti saudades…” que o gozo da discussão e participação política se esmoreceram em mim. Mas como só há duas coisas incontornáveis ( a morte e os impostos) nunca se sabe e até pode ser que o estímulo dos vossos posts me façam abrir a tal gaveta. Sinto que estou no banco e que há muitos titulares para o meu lugar, e eu não sou grande coisa nos treinos da política.
Feita esta ressalva para que não achem que blogo à deriva, mas apenas que talvez pela menor familiaridade convosco, me é mais fácil compartilhar alguns “pensamentos ociosos”, o que aliás já ameacei na minha apresentação. Dito isto segue “A vida em pause”
LPC
Este Patrick sabe-a toda. Então não é que gasta quatro postais para responder a uma inocência de meia dúzia de linhas que eu deixei - como se diz na terra dele - aqui há atrasado... e tudo para me convencer que é de direita. Pelo meio ainda diz que pensava gastar os primeiros tiros a discutir música, cinema, livros e cultura geral. Só faltam os violinos do Chopin...!
O Patrick esqueceu-se de dizer na sua apresentação que gosta de boas polémicas. Era o ponto 30. Mas eu sei disso e sexta-feira já lhe trato da saúde. Como dizem os brasileiros, m'esperem, vai.